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ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO: LIVRO "CIÊNCIA, UM MONSTRO": Lições trentinas, DE FEYERABEND

Paul Feyerabend, Se comparado com algum filósofo na história ele seria Nietzsche. Ambos são homens de espírito livre que dizem com frequência coisas provocativas que eles não acreditam somente para ver a reação das pessoas. 



CIÊNCIA, UM MONSTRO, DE FEYERABEND, trata-se de um livro muito importante da ciência do século XX.
As duas questões centrais da obra são as seguintes: Há apenas uma visão de mundo científica? A ciência é bem sucedida?

Essa obra é a reunião de várias palestras que Feyerabend apresentou em 1992 na Universidade de Trento na Itália.

Diz ele que enquanto praxis, as ciências são muitas. É um aglomerado heterogêneo e fragmentado. É uma mistura conflituosa de métodos e abordagens, tradições e tendências epistêmicas. 
A visão científica para Feyerabend não é algo universal, absoluto, indiscutível. Mas é algo que se dá em meio ao desenvolvimento histórico social, e por meio de decisões existenciais, ele assim desconstrói a ciência como um conjunto harmonioso e completo de regras e tradições de métodos e de procedimentos.
A ciência não é algo objetivo, ela não é a única verdade, ela não é espelho da do mundo.
E portanto, pra ele, ela não é bem sucedida.

Feyerabend não nega que o saber cientifico produza resultados quando diz que ela não é bem sucedida. Ele disse em suas palavras, "Repito que não acho que a ciência deva ser descartada."

 Ele não recusa o valor do produto cientifico:

"E claro, a ciência é importante, seja pelas contribuições positivas podem nos oferecer, seja porque sua sujeira está em todo lugar, é preciso sempre um cientista para limpar a sujeira de outro cientista"

Há cinco questões apontadas por Feyerabend em suas palestras, que são questões urgentes para as quais o materialismo, o objetivismo não oferece qualquer solução relevante. Como por exemplo, 1 - reduzir o número de guerras no mundo ou alimentar os famintos? 2 - ponta também que os produtos da ciência são úteis apenas para os cientistas e os admiradores da ciência e não universalmente, 3 - O êxito das pesquisas cientificas não decorrem de um único método baseado essencialmente na observação e experimentação, 4 - Todas as culturas e tradições de alguma maneira estão em contato com a realidade e fabricam produtos úteis, e 5 - Da mesma forma que acontece com qualquer conjunto de saberes, os supostos erros de concepções alternativas ao materialismo cientifico também podem ser corrigidos, com a ajuda de alguns lugares comuns.

Portanto o sucessos da ciência é reconhecido, mas qualificado como
restrito, relativo contextual, local e falível.

***
Segunda questão discutida por Feyerabend, "A ideologia de uma visão de mundo cientifico é inquestionável? 
Ele distingue os resultados produzidos por uma ideologia, e a ideologia que produz os resultados. Isso é importante, porque uma ideologia mesmo mesmo que ela seja equivocada ela pode produzir resultados satisfatórios.

A obra apresenta quatro palestras, e na segunda, apresentação essas questões são colocadas pelo filósofo:

  1.  É possível portanto  qualquer momento aceitar os resultados e rejeitar a ideologia.
  2.  Somos livres para para escolher a visão de mundo que quisermos independentemente de quantos sucessos uma visão de sucesso faça surgir a nossa frente.
  3. Aqueles que detestam o materialismo, esto livres para aceitar todas as coisas úteis produzidas pelo materialista, sem aceitar o próprio materialismo.


A compreensão de que a ciência é uma força invencível se estabelece somente se aceitarmos a retórica da propaganda.
E essas propagandas são criadas por uma mafia cientifica e pelos funcionários de uma empresa chamada razão,
a visão científica não é inescapável, necessária e absoluta.

A terceira questão analisada por ele é, "Há apenas uma visão de mundo cientifica?"
A tarefa do mundo cientifico é informar  e produzir resultados, não especular sobre  a existência e mesmo universo.
A ciência segundo objetivistas lidam apenas com fatos, e fatos apenas são.
Feyerabend anuncia que não existe uma unidade  agrupando todas as ciências particulares no rótulo ciência.

Na prática a ciência ocupa atividade de disciplinas muito distintas, Botânica, Astro-física, economia, hidrodinâmica, baseadas em métodos, conceitos,  tradições de pesquisas, formas de pensamentos, que também são distintos e as vezes conflitantes. Quando olhamos em volta nos deparamos com grandes subdivisões entre áreas que são por si só já são coleções discordantes de métodos e resultados.

Fica claro o anarquismo metodológico, onde ele anuncia desunidade da ciência, e não a visão unitária que as vertentes filosóficas defendem, e não existindo essa unidade cientifica, existe um supermercado de métodos, divisões e abordagens cientificas. Tudo vale na ciência.

Sobre essa critica da visão unitária ele destaca três teses:

  1. A ciência é bem sucedida, mas ele destaca que os produtos científicos não são universais, absolutos e indiscutíveis.
  2. A aceitação dos produtos da ciência não torna obrigatório a aceitação da ideologia, o materialismo, o objetivismo, por exemplo, da visão de mundo cientifico.
  3. Não existe uma única visão cientifica de mundo que seja composta por um conjunto coeso harmonioso e homogêneo de métodos, abordagens, tradições de pensamentos e tendências epistêmicas.


Feyerbend, ao falar do objetivismo desta visão do mundo cientifica, que trata a ciência como um saber unitário, que trata como se a ciência fosse um espelho da realidade, remete ao pensamento grego, surge com pre socráticos, Tales, Parmenides, depois Platão, com caráter mais teórico do saber científico.
Tales ao falar tudo é água ao falar "tudo é água" ele nos apresenta uma unidade diante da multiplicidade do mundo. É como se existisse um todo unitário que remete a essa multiplicidade do mundo. Xenófanes com o puro pensamento. Parmenides com o ser, Platão com a teoria, são todos elementos que remetem essa visão unitária do mundo.
Enquanto a ciência grega valorizava a teoria, como elemento central do saber cientifico, é somente com a ciência moderna, com a revolução cientifica moderna que se começa a valorizar a experiência.

De modo geral o pensamento grego valorizava que a ciência estava vinculada a teoria.
O pensamento moderno põe um elemento novo no saber cientifico, que é a experimentação, a teoria mais a experiência prática.
Os pensadores buscaram os princípios gerais abstratos do mundo. Onde surge o objetivismo, essa visão unitária.

"Quem disse que é a ciência que determina a natureza da realidade, presume que as ciências tem uma única voz. Acredita que existe um monstro, a ciência, que quando fala repete e repete sem parar uma única mensagem coerente. Nada mais distante da realidade. Diferentes ciências tem ideologias muito distintas, vemos então que as ciências são repletas de conflito, o monstro ciência, que fala com uma unica voz, é uma colagem feita por propagandistas reducionistas e educadores"



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